Oficina CEER
 06-02-2013
NOVOS COMPOSTOS PODEM INIBIR OS TUMORES

Maria João Queiroz, diretora do Centro de Química. Um projeto multidisciplinar englobando três instituições de I&D - coordenado por Maria João Queiroz na área da química orgânica e articulado com contributos da química computacional (Instituto Politécnico de Bragança), assim como da biologia celular e molecular (Faculdade de Medicina da Universidade do Porto) - está a desenvolver novos compostos com o objetivo de entrarem em ensaios clínicos, para posterior aplicação como fármacos anti-tumorais e/ou antiangiogénicos (anti-vascularização tumoral). Impedindo a vascularização do tumor, estes compostos anunciados como de natureza dual visam combater o próprio tumor e, por outro lado, inibir o aparecimento das metástases. Este projeto científico do qual a UMinho é a instituição proponente tem financiamento da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) até dezembro.

A ideia deste projeto de investigação surgiu a partir da presença assídua de Maria João Queiroz, investigadora e diretora do Centro de Química da UMinho, em fóruns internacionais de conhecimento no âmbito da química medicinal. "Acabei por desenvolver interesse na síntese orgânica de novos compostos com potencial atividade nestes recetores membranares envolvidos no cancro e na angiogénese", revela. O desafio é, em articulação com as outras especialidades envolvidas, desenvolver novos compostos com maiores níveis de eficácia.

A angiogénese tumoral é o processo de vascularização que permite o fornecimento de oxigénio e nutrientes às células tumorais, promovendo a sobrevivência dos tumores, o seu crescimento e consequente formação de metástases. A proposta deste projeto aponta para a síntese de novos compostos para utilização em terapias que inibam a angiogénese e a progressão dos tumores. A responsável frisa que o projeto "centra-se na inibição de recetores membranares de fatores de crescimento celular, de tirosina cinase, envolvidos no crescimento e diferenciação tanto de células tumorais como de células endoteliais, pelos novos compostos sintetizados". Segundo a investigadora, "ao inibir estes recetores nos dois tipos de células estamos a evitar que o tumor cresça e vascularize". Este tratamento "pode ser dual, tratando o tumor e evitando a metástase".

O programa de trabalhos começa com a síntese orgânica, já que numa primeira fase são sintetizados novos compostos heterocíclicos inibidores do domínio de tirosina cinase dos recetores alvo. Em colaboração com a modelação molecular e estudos de docking, a estrutura é trabalhada usando a química computacional, numa perspetiva de desenho racional de fármacos. Posteriormente, os compostos são submetidos a ensaios de inibição enzimática usando os domínios de tirosina cinase dos recetores em estudo, com vista a encontrar os mais promissores para serem estudados em células tumorais e em células endoteliais.

Os resultados finais consistirão na obtenção de novos compostos, completamente caraterizados, que cumpram os objetivos do projeto, visando a entrada nos exigentes testes clínicos da indústria farmacêutica. "No entanto", assegura Maria João Queiroz, "tudo depende também da toxicidade dos compostos, que estamos a testar em linhas celulares primárias de fígado de porco", pois alguns compostos "apresentam concentrações de inibição na ordem dos 10 nanoMolar, o que é considerado um resultado excelente, e se estes compostos não forem tóxicos têm uma grande potencialidade para serem aplicados na terapêutica". Neste caso, poderão depender apenas dos testes farmacológicos, relacionados com a absorção/administração, distribuição, metabolização e excreção (ADME), que determinarão a sua utilização clínica.

No que diz respeito à colaboração do meio académico com a indústria farmacêutica, Maria João Queiroz frisa que no contexto internacional existem vários projetos de colaboração, em que para além de investigação própria, a indústria já faz grandes apostas em projetos de I&D em colaboração com as universidades. Porém, visto que a indústria farmacêutica em Portugal é quase inexistente, "nas universidades interessa ter os resultados publicados em artigos científicos, ou patenteados, no entanto manter as patentes é muito difícil", pelo que a investigadora coordenadora considera "fundamentais as candidaturas a projetos para financiamento" - até porque, nestas áreas relacionadas com o cancro, "é de todo o interesse desenvolver novos e eficazes fármacos com baixa toxicidade".
Até agora, o desenvolvimento científico deste projeto de investigação tem conseguido reconhecimento na publicação de vários artigos em revistas internacionais, sobretudo das especialidades de química orgânica, medicinal e computacional. A publicação conjunta dos melhores resultados da investigação vai decorrer ao longo deste ano.

Fonte: uminho.pt