Oficina CEER
 07-10-2010
INVESTIGAÇÃO ISOLA AGENTE INFECCIOSO DA ÚLCERA DE BURULI: UMINHO PROCURA UMA NOVA VACINA

Um trabalho de colaboração entre cientistas de Portugal, Estados Unidos da América, Benin e Bélgica estuda a terceira doença infecciosa provocada por micobactérias com maior incidência mundial. A participação portuguesa, liderada por Jorge Pedrosa e Manuel Teixeira da Silva, contribuiu parao o primeiro isolamento do agente infeccioso da Úlcera de Buruli do ambiente, a partir de um insecto aquático colhido em África.

O projecto financiado pelo Serviço de Saúde e Desenvolvimento Humano da Fundação Calouste Gulbenkian apoia uma parceria local entre o Instituto de Investigação em Ciências da Vida e da Saúde (ICVS) da Escola de Ciências da Saúde da UMinho e o Instituto de Biologia Molecular e Celular (IBMC) Porto. O trabalho desenvolvido no ICVS contribui, assim, para um importante avanço no conhecimento, após 50 anos de estudo daquela doença tropical negligenciada.

A Úlcera de Buruli é descrita pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como uma “infecção que produz uma extensa destruição da pele e dos tecidos moles e consequente formação de grandes úlceras, geralmente localizadas nas pernas e nos braços”. Jorge Pedrosa, investigador do Domínio de Microbiologia e Infecção do ICVS, considera que a doença é negligenciada, tanto pela falta de meios terapêuticos e preventivos, como pela carência de conhecimento e investigação sobre a doença, visto que afecta sobretudo as comunidades rurais mais pobres de países em vias de desenvolvimento.

A doença, provocada pela bactéria Mycobacterium ulcerans, atinge zonas tropicais na Austrália, na Ásia, na América Latina e, principalmente, na África Ocidental, podendo chegar a atingir 20 por cento da população nas zonas endémicas, “o que é uma incidência muito alto naquelas zonas endémicas”, acrescenta o docente. No conjunto das infecções provocadas por micobactérias, a tuberculose é a doença com maior incidência no mundo, seguindo-se a lepra e, em terceiro lugar, a Úlcera de Buruli. Segundo a OMS, a doença surge perto de ambiente aquáticos como rios de curso lento, águas estagnadas, podendo aparecer, também, em zonas inundadas ou afectadas por cheias.

O grupo de investigação português conseguiu, pela primeira vez, isolar o agente patogénico da Úlcera de Buruli através de um insecto colhido num charco em África. Jorge Pedrosa coloca a hipótese de os insectos funcionarem como vectores, isto é, como meios de transmissão entre o agente infeccioso e o Homem. “Tem havido investigação muito activa para tentarmos perceber se o agente infeccioso existe nesses meios aquáticos e como é que é transmitido aos doentes”.

Ao longo da última década, este trabalho de investigação tem vindo a desenvolver-se numa rede entre diferentes laboratórios. Manuel Teixeira da Silva, investigador do Grupo de Imunologia de Peixes e Vacinas, salienta a componente “multidisciplinar e especializada” da pesquisa. A investigação envolve ainda hoje Françoise Portaels, que iniciou o estudo da doença no Instituto de Medicina Tropical de Antuérpia em 1969.

Uma vacina para combater a indiferença.
A Úlcera de Buruli é uma doença silenciosa e com efeitos devastadores nas populações afectadas das zonas endémicas. Dados da OMS confirmam que, “devido às propriedades imunossupressoras locais da micolactona, a doença progride sem dor nem febre, e tal pode explicar porque é que os doentes não procuram tratamento rapidamente”. Quando os doentes procuram assistência, fazem-no frequentemente junto de “curandeiros tradicionais” antes de procurarem os cuidados médicos adequados – e quando os procuram, é tarde”, comenta Jorge Pedrosa.

O professor salienta que “muitas vezes esse tipo de situação é vista como um estigma social ou um mau-olhado, o que conduz ao abandono dos doentes e que pode levar ao seu não tratamento”. Mesmo quando a lesão é curada, deixa muitas vezes sequelas para o resto da vida, como fibroses, retracções, membros disfuncionais ou mesmo amputações. “A Úlcera de Buruli atinge muitas crianças, o que é ainda pior, porque compromete o futuro das comunidades afectadas das zonas endémicas”.

De acordo com a OMS, a bactéria “Mycobacterium ulcerans produz uma toxina destrutiva, a micolactona, que causa lesões tecidulares e inibe a resposta imunitária”. Jorge Pedrosa considera que só quando se compreende como é que o agente infeccioso ultrapassa as barreiras das defesas imunes do hospedeiro, é que se pode tentar criar uma vacina que permita uma resposta imunológica competente face ao agente infeccioso.

Centro do estudo é a relação entre o agente infeccioso e o hospedeiro.
A investigação desenvolvida em colaboração com outros laboratórios internacionais incide sobre diferentes aspectos da Úlcera de Buruli. “Estudamos aspectos como o diagnóstico”, refere Jorge Pedrosa. Os investigadores da UMinho participaram em estudos que testam a técnica da aspiração por agulha fina, uma “forma de colheita de amostras da lesão menos invasiva do que uma tradicional biópsia”.

O tratamento da Úlcera de Buruli recomendado pela OMS é constituído por dois antibióticos, a rifampicina e a estreptomicina, podendo ou não ser associado à intervenção cirúrgica. “Temos evidência de que para lesões muito grandes, com mais de 10 centímetros de diâmetro, é importante, para além do antibiótico, associar nas primeiras semanas a cirurgia”, aponta Jorge Pedrosa.

“Mas o ponto fundamental do nosso interesse é o estudo da relação entre o agente infeccioso e o hospedeiro, neste caso o Homem”. O estudo desta interacção é feito através do acompanhamento de doentes infectados, ou através da simulação da doença “em tubos de ensaio ou em meios de cultura onde temos células vivas infectadas, ou então em animais infectados, neste caso usando o modelo da infecção no ratinho”, como refere o professor. “O objectivo último seria o desenvolvimento de uma vacina eficaz”, explica Jorge Pedrosa. Segundo a OMS, uma vacina segura que se pudesse utilizar nas zonas endémicas onde a Úlcera de Buruli tenha aparecido recentemente poderia constituir a forma mais eficiente de combater a doença a longo prazo.

Fonte: http://www.uminho.pt